Rita da Farmacia Memorias

FAZENDA MUFUMBO NO SERTÃO DE CANINDÉ
 
 
 
 
De propriedade do meu avô Icrólio Nunes de Góis, casado com Raquel Nunes Colares “Sinhá” , a fazenda Mufumbo é a lembrança mais querida que guardo da minha infância. Na casa de meus avós, pais de João Deoclécio Colares de Gois. José Colares de Gois, Luís Colares de Góis, Adélia Colares de Góis, Raimundo Edmundo Colares de Gois e Maria Stela Colares de Góis, esta, deixando cedo a vida familiar para se dedicar à vida religiosa. Cabiam todos, filhos, netos e agregados.
 
Era uma convivência amiga e feliz e até socialista visto que, à medida que os filhos casavam, continuavam morando juntos naquela casa enorme que depois vinha a acolher também os netos. Os filhos trabalhavam na roça e todo dinheiro ganho era posto numa caixinha de madeira que era usado de acordo com as necessidades de cada um.
 
Com palavras, é difícil descrever o quanto foi feliz a nossa infância naquela casa.
Cada detalhe guardo com muito carinho no meu coração. As refeições eram feitas numa mesa grande com o vovô à cabeceira e os filhos sentados respeitosamente ao redor.
 
Era tudo meticulosamente organizado a partir do que comíamos: cuscuz e coalhada no café da manhã, arroz, feijão, queijo e ovos no almoço e no jantar uma suculenta sopa de feijão feita pela Madrinha Chica (para mim, Dedela). Aos sábados era o dia da matança de um carneiro – que o Flávio gostava de comer a cabeça inteira. Aos domingos a galinha à cabidela feita pela tia Luzanira, que jamais haverá sabor igual.
Esperávamos ansiosamente pela chuva. Ficávamos no alpendre e quando estava “bonito para chover” dizíamos: “a chuva já vem zoando”. Era sinal de açude cheio para os nossos inesquecíveis banhos. Depois da chuva eu corria para o Riacho do Campestre vê-lo garboso, poderoso arrastando tudo levando água para o açude, era um momento, mágico para mim.
 
No mês de maio íamos colher flores “Sorriso de Maria” para enfeitar o altar para as novenas de Nossa Senhora que a Vovó Sinháfazia por devoção. Compareciam os moradores da fazenda e depois da reza a criançada brincava de roda no terreiro debaixo do Fícus Benjamim.
O Mufumbo é sempre lindo. Mesmo quando falta chuva, ainda assim ele tem os seus encantos.
 
Do vovô herdamos o gosto pela leitura, da Vovó os ensinamentos e normas de higiene. Não tínhamos brinquedos, nem maiores confortos, mas tínhamos a natureza à nossa disposição: o canto dos pássaros, o banho na lagoa ouvindo as marrecas, o cheiro do marmeleiro, do mussambé, a beleza das ovelhas voltando à tarde do pasto, o mugir das vacas, o leite mugido que tomávamos a tarde… éramos ricos, então!
O tio Edmundo que nos ensinava a identificar o nome das árvores e o canto dos pássaros. Brincávamos com o touro BRASIL, que apesar de gigante era manso como um cordeiro, e com o FARO FINO, o gato querido do Vovô Ouvíamos as lendas da cobra d’água no açude, da cobra que morava nas palhas de milho da casa velha (que o vovô criava), lendas que ainda existem hoje na minha imaginação.
 
A prima Vilanir que me ensinou a nadar (na marra), amiga inseparável até hoje. Ela do lado de lá e eu do lado de cá. Ecologicamente incorretas, íamos procurar ninhos de periquitos para criá-los em casa. Estes eram os nossos tesouros, “que a ferrugem não destrói, nem a traça consome”.
 
Mufumbo, terra sempre linda com inesquecíveis riachinhos de águas cristalinas e flores miúdas ao redor. Você é minha saudade.
Como disse o poeta: “Não permita Deus que eu morra sem que eu volte por lá”.
Rita de Cássia Lisboa Góis.

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